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Cinema: Os Jogos da Fome – A Revolta (Parte Um)

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(por Raquel Aguiar)

Katniss, a rapariga em chamas, viu o seu fogo esfriado. Tornou-se numa personagem atordoada, confusa, depressiva e miserável.

O filme começa com uma pequena recapitulação de 15 segundos do que se passou nos filmes anteriores – muito ao estilo do que acontece nos livros.

Em primeiro lugar, os Jogos já não existem, muito por causa da guerra. Mas no fundo a guerra era uma “desculpa” ideal para estes Jogos se transformarem em algo mais. Porém, a única violência bélica a que somos expostos vem na forma de tropas a marchar, uma execução pública de apoiantes do Mimo-Gaio e o assalto de guerrilheiros à geradora do Capitólio e tudo isto sem a participação do rosto da revolta. A única reacção que ela tem (e a que ela tem direito de ter) é fazer parte de propaganda, ou “propos” como Plutarch lhes chama, cujo objectivo é perturbar a vida do Capitólio e chamar a população dos distritos à acção.

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Mas como era de esperar, Katniss é completamente incapaz de representar e parece artificial. Só quando realmente fica de caras com as consequências da guerra que ela desencadeou é que a sua reacção passa a ser genuína e proclama a sua afamada frase “If we burn, you burn with us”.

Todo o cenário cinzento, sujo e sem vida, assemelha-se muito ao de filmes que retratam a vida durante a 2ª Grande Guerra e contudo, consegue ser superficial o suficiente para dar alguma leveza, sobretudo pela presença reticente de Effie que faz questão de contrariar o “estilo” do resto dos habitantes do Distrito 13.

Outra ausência neste filme (além de Peeta, claro), é o romance entre Katniss e Gale – que, pessoalmente, apoio. Gale é uma das personagens mais interessantes da história: é forte e sensível e foi apanhado no meio da Guerra, mas não ficou de braços cruzados quando chegou a altura de tomar decisões cruciais e mesmo tendo sentimentos por Katniss, ele não se aproveita do facto de Peeta não estar presente para pressionar Katniss.
Mas Katniss só lhe dá atenção quando ele está a sofrer. Em oposição a Gale está Peeta, tornado peão na guerra como o porta-voz do Presidente Snow, cuja única função é perturbar Katniss de modo a desmoronar a rebelião por dentro.

A parte arrepiante do filme, devo dizer, é sem dúvida o crescendo que se inicia com o chilrear de Mimos-Gaios, passando pela Katniss a cantar a música “The Hanging Tree” e terminando num coro compassado com o marchar de um grupo de rebeldes, prometendo uma sequência de acção, mas acabando por ter pouco impacto.

Apesar de se manter fiel à personagem, o facto de não darem espaço de manobra a Lawrence, acabou por ser um tiro na culatra. Na maior parte do filme, vêmo-la a chorar pelos cantos ou a lutar por recuperar o fôlego depois de um ataque de pânico em close-ups praticamente desnecessários. Acaba por ser vítima das circunstâncias – como Peeta nos filmes anteriores.
Personagens como Finnick e Prim que veriam neste filme a sua oportunidade de crescer e tornarem-se algo importantes para a história, através das interacções com Katniss, tiveram as “pernas cortadas” e não passaram de personagens secundárias, mais uma vez. O que é pena, porque se queriam preencher o filme com acções interessantes, estas eram sem dúvida as acções que gostaria de ter visto mais.

Dito isto, na minha opinião, a divisão deste livro em duas partes não foi uma jogada inteiramente inteligente.
Este filme praticamente obriga a audiência a esperar que alguma coisa especial aconteça. O filme demonstrou apenas a parte que menos gostei no livro: uma guerra de propaganda entre duas facções que usam e abusam de imagens violentas e chocantes para fazerem ver o seu ponto de vista.

Como aconteceu com outros livros young adult adaptados ao cinema, a divisão do último volume de uma série em dois apenas serve para aumentar lucros e diminuir a qualidade de uma história que caso fosse feita por inteiro, poderia muito bem ser o melhor filme do franchise. Ainda assim, é de esperar que milhões pessoas vejam a primeira parte do finale desta série, tendo em conta a quantidade de fãs em todo o mundo que esta história gerou. No fundo, e nunca pensei vir a dizer isto, o filme peca por ser demasiado fiel aos livros.

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